Friday, September 19, 2014

"Sobre Palavras"...


... que atrapalham e ajudam a viver...



"Mas você sabe que a pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida?" 
(Clarice Lispector) 


Vejam só: encalhar numa palavra. A pessoa lá vai no seu barquinho vida adentro e, de repente, encalha numa palavra. Pode ser "marxismo", "Deus", "pai", "vanguarda", "revolução", "Paris", "aposentadoria". As palavras são paralisantes. O Brasil, por exemplo, no princípio do século estava encalhado na "febre amarela". Nos últimos anos reencalhou na "ditadura" e na "censura". Tem hora que encalha na "inflação". Agora encalhou no "desemprego". E está dificil desencalhar da "reforma agrária", da "corrupção" e do "subdesenvolvimento".

(...) Quem leu O nome da rosa se lembra que havia lá na biblioteca medieval um texto impossível, envenenado, como o fruto interditado no meio do jardim. É que as palavras, com essa coisa de se plantarem em nossa vida, nos alimentam e nos matam, são remédio e veneno, e, como os produtos de uma farmácia, são drogas que podem sarar ou curar.

Aurélio Buarque de Hollanda, enfatizando o lado positivo das palavras, me disse um dia: “nós temos que dar oportunidade às palavras”.Entendi isto como uma sugestão para a gente se desencalhar e ir desfrutando palavras novas, como o amante que com um novo amor renasce vida afora. 

Em algumas culturas, certas palavras não podem sequer ser pronunciadas, pois trazem desgraças. Mas em algumas narrativas, certos vocábulos abrem grutas, cofres e corações. Sim, algumas palavras ajudam o barco a flutuar: “esperança”, “amanhã”, “utopia”. 

Pode-se também passar uma estação com algumas delas, como se pode passar uma temporada num determinado lugar, num certo corpo, num certo amor. Certas palavras são como hotéis: nelas fazemos pernoite, mas outras demandam moradia maior, são grutas ou catedrais que exigem contemplação.

Com as palavras a gente tem que tomar cuidado, pois no primeiro encontro nos libertam, depois nos aprisionam. Há palavras tão duras e montanhosas, que nem com trator, só dinamitando. E o fato é que um simples “bom dia” ou “alô” pode salvar uma vida. 

A psicanálise pretende ser o método da cura pela fala, mas também pode se tratar pelo ouvido. As palavras ouvidas também curam. Vejam a mãe soprando o dedinho do filho dizendo: “já passou o dodói, pronto”. 

Viver também é a arte de lidar com as palavras.E como já disse alguém - as palavras são 
caminhos para encontrar as coisas perdidas. 


( texto que fez parte da prova do Instituto Rio Branco)

~~

Disclaimer
Segundo meu parceiro Carlos Drummond de Andrade, "a palavra e o ato vivem em conflito, e este geralmente vence". Concordo com Drummond.

O som de hoje tá aqui .



E aqui  o endereço da Fundação Cesgranrio para quem quiser se candidatar a "ler", "falar" as provas de Inglês e Espanhol para os candidatos portadores de deficiência visual. 

Essas palavras, certamente, não atrapalham. Ajudam.



Rasguem os verbos bonitos, rs deem bastante bom dia, como vai... ?
Aproveitem a vida real.
Bom fim de semana para os amigos que me leem.

Lau




Imagem by  Pix.

Wednesday, September 17, 2014

Verdadeiro X Falso ~~~True X False



" Poema do falso amor"

O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro
É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?
Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso
Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!

(Dante Milano)

"Quem pode ser verdadeiro/ sem que desagrade?" 
 (Cecília Meireles)


"Disclaimer à la Aristóteles "
Negado o princípio de não-contradição e, portanto, admitido que tudo se possa afirmar de tudo e negar de tudo, nenhuma coisa poderá mais se distinguir de outra e todos dirão, ao mesmo tempo, o verdadeiro e o falso.
Inacreditável essa filosofia Aristoteliana, concordam amigos? 
Ou não?  :) 

~~~

No tema,deixo  uma canção do Grande Dorival Caymmi, 

de quem sou fã de carteirinha.Aliás,da família to-da. 
Fone nos ouvidos e deliciem-se com a maravilhosa,linda, perfeita,divina voz 
de Danilo Caymmi.
É só clicar : ♪♪♪  (link)

    Um beijo para os amigos que me leem:
Lau






Recadinho:

Obrigada à nova @miga que aqui chegou e ficou .

Seja bem-vinda!!





Sobre Dante Milano, o poeta que era amigo do Manuel,o "Bandeira", (link) pode-se ler aqui

E sobre Cecília, aqui.

Imagem by Flickr, Fengh Shui.

Monday, September 15, 2014

"O Abraço"


Entrelaçar os braços,
misturar com as tuas
as minhas linhas da mão,
ouvir a música ardente
dos teus anseios,
encostar nossas almas,
nossos olhos, costurar
nossas esperanças,
com o mesmo fio
dividir os sonhos.

(Roseana Murray in Rios da Alegria)




 No tema, o soundtrack  tá aqui

Uma boa semana para os amigos que me leem
Beijos
Lau




p.s.
Quem se interessar (com 2 esses) pelas pulseiras, aceitam-se encomendas.:)



Fonte: Rosena Murray in "Rios de Alegria"
Imagem com licença poética-"amuletos de proteção"- com direitos autorais .

Thursday, September 11, 2014

O Olhar de Gullar...( Reposting)


                                   

O que eu vejo
me atravessa
como ao ar

a ave

o que eu vejo passa                                                                                  
através de mim
quase fica

atrás de mim

O que eu vejo
a montanha por exemplo
banhada de sol
me ocupa

e sou então apenas
essa rude pedra iluminada
ou quase
se não fora
saber que a vejo.



Minha homenagem ao poeta Gullar, que ontem completou 84 anos.
Um fofo!

Fone no ouvido porque o som e o olhar de Toquinho estão aqui.


Bom fim de semana para os amigos que me leem


Lau







Aqui tem mais sobre Ferreira Gullar.
Imagem: Good Bye Birds , by Pixdaus
Reposting com título reeditado. (Link)

Wednesday, September 10, 2014

" Série Amuletos"... Hoje é dia de Arnaldo...


 São Judas Tadeu, você é poderoso!
 Obrigada por tudo!!
Amém!!)

“Todas as coisas do mundo 
não cabem
 numa 
ideia. 
Mas tudo cabe 
numa 
palavra,
 nesta 
palavra
 tudo.”

(Arnaldo Antunes.)

~~~
"Sou Uma Criança, Não Entendo Nada."

~~~
"E a gente canta, a gente dança, a gente não se cansa de ser criança; a gente brinca na nossa velha infância"...
~~~
(...)"Fique bem com razão ou não, aterrize
Alma, isso do medo se acalma
Isso de sede se aplaca".

~~~
(Arnaldo Antunes  in poemas e letras de música -excertos)


Aqui tem mais Arnaldo.
O anúncio é compridinho , mas vale a pena esperar... #ficaadica
"fé em Deus e pé na "tábu a da"  :))

Beijo para os amigos que me leem.

Lau


Imagem com "direitos autorais".
Altar da Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.

Tuesday, September 9, 2014

"Duas Sombras" (Da série Contos de Drummond em Setembro)


Por que Meneses tinha duas sombras em vez de uma,como toda gente? Ele não sabia nem se importava com isto.Há casos de pessoas que perderam a sombra e lutaram por trazê-la de volta, mas o fenômeno de duas sombras iguais era totalmente inédito. A cidade interessou-se a princípio:acabou se acostumando e mesmo tirando partido. Meneses era a única atração turística  de um lugar pobre de paisagem e de prazeres.

-Já que me tornei polo turístico- disse ele-devo tirar proveito desta condição.A Prefeitura tem de me pagar uma quantia mensal.O Prefeito coçou a cabeça.Pagar a um indivíduo por ter sombra dupla? Não estava certo.Por outro lado,viajantes começaram a chegar de estados vizinhos e até do exterior.Dinheiro chovendo.

Meneses trancou-se em casa e, atrás da porta, negociou, com a autoridade, participação na renda.Ou isto, ou se mudava para longe.

Esta foi a origem da Taxa das Duas Sombras, que vigorou até a morte de Meneses, rico e afamado. 

Só que, nos últimos tempos uma sombra diminuíra de tamanho, e um vereador da oposição propôs que lhe fosse cassada a sinecura. Mas uma sombra e meia era nova atração, e a proposta foi rejeitada.
(Carlos Drummond de Andrade)


Hoje, a cantora Maria Rita 
está comemorando seu niver. 
Minha homenagem à filha de Ellis Regina  pode ser ouvida aqui.

Outro aniversariante do dia está aqui, num belo "doodle", 

criado pelo Google (um parceiraço tb), 
em homenagem ao ENORME escritor, Leo Tolstói.

Um beijo para os amigos que me leem
Lau







Fonte: Carlos Drummond de Andrade em Contos Plausíveis- pág. 79
Editora Record
Imagem: Two shadows by Decade

Monday, September 8, 2014

"Nova série Crônicas de Drummond"



- Ouvi dizer que vai a Paris.
- Exato.
- A negócio?
- Não.
- Turista?
- Não.
- Missão política reservada?
- Não.
- Tão secreta assim?
- Não.
- Se não sou indiscreto...transa de amor?
- Não.
- Está muito misterioso.
- Não.
- Como não? Saúde, talvez.
- Não.
- Compreendo que não queira alarmar...
- Não.
- Busca apenas repouso.
- Não
- Fugir do trabalho, então.
- Não.
- Capricho do momento.
- Não.
- Tantos não devem significar um sim.
- Não.
- Significam sim. Vou repetir as hipóteses.
- Não.
- Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.
- Não.
- De qualquer maneira, é financiamento internacional.
- Não.
- Então a coisa está ficando preta.
- Não.
- Está preta, e há jogadas que só em Paris.
- Não.
- Percebe-se alguma coisa no ar.
- Não.
- Não dá para perceber, mas há.
- Não.
- Mas pode haver a qualquer momento.
- Não.
- Nem hipótese?
- Não.
- Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?
- Não.
- No ano que vem?
- Não.
- Ouvi mal?
- Não.
- Sendo assim, é segredo pessoal?
- Não.
- O coração é quem dita a viagem... eu sei.
- Não.
- Sim, sim. Pode confessar.
- Não.
- Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.
- Não.
- Sei que não precisa disso, mas...
- Não.
- Por que não? Está com medo da imprensa?
- Não.
- Receia perder a situação social?
- Não.
- A situação financeira?
- Não.
- Política?
- Não
- Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.
- Não.
- Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.
- Não.
- Discretamente.
- Não.
- De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.
- Não.
- Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
- Não.
- Só cinco linhas.
- Não.
- Duas.
- Não.
- Mas tenho de dizer alguma coisa.
- Não.
- O senhor é notícia.
- Não.
- Pode dizer que não, mas é sim.
- Não.
- Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
- Não.
- Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?
- Vou.
- E que é que vai fazer em Paris?
- Ver.
- Ver o quê?
- O Último Tango em Paris.
- E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?
- Você não me perguntou, por que eu havia de responder?

(Carlos Drummond de Andrade ,o Grande, in Viagem a Paris) 





Disclaimer:
“Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes.” 
(Drummond quem diz. Dou "mó apoio"a meu parceiraço)



  Aqui,pra quem aprecia,há um belo som. E aqui mais uma viagem a Paris.


Bom dia,amigos!
Boa semana
 Um beijo 







Imagem by Pinterest
Fonte: De notícias & não notícias faz-se a crônica:
Drummond de Andrade: Companhia das Letras, 2013