Friday, November 28, 2014

" A Arte de Ser Feliz"

                                     

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? quem as comprava? em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? e que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da altura da janela;  e mesmo que a ouvisse, não a  entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
             
(Grande Cecília Meireles em "A Arte de Ser Feliz")



 Disclaimer:

 Essa crônica foi "trucidada" por "surrupiadores " e "surrupiadoras" da  Web, que a transformaram e um poema que rola no Google com o mesmo título. Coitada de Cecília, nem a ela respeitam.

Usarei os mesmos argumentos que já citei em posts anteriores: a arte de ver é um "idioma difícil". Mas,na minha opinião,tudo é uma questão de "aprender...o idioma,o olhar".Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem.Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é aprender a ver."Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios",escreveu Caeiro,heterônimo de Fernando Pessoa.Já Cummings dizia: "agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".Quem nunca aprendeu essas lições, não fique triste, ainda há tempo.Quem diz sou eu,Lau.



nos ouvidos :)  porque a musiquinha,no tema,tá aqui.
E aqui há outra.

Um bom fim de semana para os meus fiéis leitores. 

Um beijo
Lau






Mais sobre Cecília  pode ser visto
aqui.
Imagem com direitos autorais, feita by me na última viagem a Rotemburgo, na Alemanha. 
Fonte: "Escolha Seus Sonhos", Cecília Meireles, Eitora Record.